Quem trabalha com pescados já sabe que o clima não é apenas assunto de previsão do tempo. Temperatura da água, chuvas, secas e condições do oceano podem chegar até a mesa de negociação entre fornecedores, restaurantes e supermercados.
E é justamente por isso que o El Niño de 2026 merece atenção. O fenômeno foi confirmado em junho e os boletins oficiais passaram a indicar alta probabilidade de atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão de 2026. O Cemaden explica que essa classificação ocorre quando as anomalias da temperatura da superfície do Pacífico Equatorial ultrapassam 2 °C. O termo “Super El Niño” é informal, usado para eventos excepcionalmente fortes, e não significa que todas as regiões necessariamente enfrentarão impactos extremos.
Para o mercado de pescados, porém, existe uma questão mais importante:
o que o aquecimento do Pacífico tem a ver com o peixe comprado por restaurantes e empresas do Food Service no Brasil?
A resposta é: mais do que parece.
Tudo começa na água
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere na circulação atmosférica e modifica padrões de temperatura e chuva em diferentes partes do planeta.
No ambiente marinho, os efeitos podem ser ainda mais diretos.
A FAO explica que, durante episódios de El Niño, o aquecimento das águas superficiais no Pacífico oriental enfraquece a ressurgência, processo que leva águas frias e ricas em nutrientes até a superfície. Menos nutrientes significam alterações na disponibilidade de plâncton e, consequentemente, na cadeia alimentar marinha.
Um dos exemplos mais conhecidos acontece com a anchoveta peruana.
As águas mais quentes dificultam sua pesca e isso não afeta apenas quem comercializa essa espécie. A anchoveta é uma importante matéria-prima para a produção mundial de farinha e óleo de peixe, utilizados, entre outras finalidades, na alimentação aquícola.
Segundo especialistas ouvidos pela CNN Brasil, a produção peruana desses insumos já registra redução e, caso as condições persistam, pode haver pressão adicional sobre os custos da aquicultura.
Ou seja, um fenômeno que começa no Pacífico pode avançar pela cadeia produtiva até atingir custos de criação, disponibilidade de matéria-prima e formação de preços.
E os peixes produzidos no Brasil?
Aqui a conversa muda um pouco.
Na aquicultura brasileira, o problema não está somente no oceano. Está também nos viveiros, rios, reservatórios e estruturas produtivas.
O Ministério da Pesca e Aquicultura alerta que alterações no regime de chuvas podem afetar diretamente pesca e aquicultura. Períodos de seca reduzem níveis dos rios e podem prejudicar navegação, reprodução de espécies e disponibilidade de água. Já chuvas excessivas aumentam o risco de enchentes e danos às estruturas de produção.
Há ainda outro fator importante: temperatura da água.
O próprio MPA recomenda que produtores acompanhem parâmetros como temperatura e oxigênio dissolvido em tanques e represas durante o fenômeno.
No Sul, por exemplo, a Epagri alerta que o cenário de El Niño forte a muito forte pode trazer chuvas acima da média, elevada umidade e maior frequência de eventos extremos, criando riscos para piscicultura, maricultura e pesca artesanal.
Isso não significa que haverá falta de peixe ou aumento generalizado de preços. Os impactos variam conforme espécie, região, sistema produtivo e duração das condições climáticas.
Mas significa que o mercado precisa acompanhar o cenário mais de perto.
O que restaurantes e compradores devem observar?
Para quem compra pescados, talvez a maior mudança provocada por um evento climático dessa magnitude seja a necessidade de planejamento.
Se determinada cadeia produtiva enfrenta menor oferta, problemas logísticos ou aumento dos custos de produção, esses efeitos podem aparecer posteriormente nas negociações comerciais.
Por isso, compradores de restaurantes, hotéis, supermercados, peixarias e empresas do Food Service devem acompanhar principalmente três pontos: disponibilidade, regularidade de abastecimento e comportamento dos custos.
Também é um bom momento para revisar o mix de produtos.
Uma operação excessivamente dependente de uma única espécie ou origem fica mais exposta quando ocorrem oscilações de mercado. Trabalhar com alternativas como Filé de Tilápia, Salmão, Pescada, Abadejo, Panga, camarões e outros frutos do mar, conforme a proposta do estabelecimento, pode ampliar as possibilidades comerciais diante de mudanças na oferta.
E existe outro fator que ganha importância: estoque.
Pescados congelados permitem trabalhar com maior previsibilidade do que uma operação totalmente dependente da disponibilidade diária de produtos frescos. Isso não elimina os impactos do mercado, mas oferece ao comprador mais ferramentas para planejar compras e administrar períodos de maior volatilidade.
Não é motivo para alarmismo. É motivo para acompanhar o mercado.
Esse talvez seja o ponto mais importante.
Um Super El Niño não significa automaticamente escassez de pescados nem aumento de preços. Até mesmo a intensidade do fenômeno não determina, sozinha, a gravidade de seus impactos. Órgãos científicos destacam que os efeitos dependem de localização, vulnerabilidade, exposição e outros fatores climáticos.
Mas ignorar o fenômeno também seria um erro.
O El Niño atual deve persistir pelo menos até o início de 2027, e órgãos brasileiros vêm reforçando a necessidade de monitoramento das condições meteorológicas, hidrológicas e produtivas.
Para quem trabalha profissionalmente com pescados, portanto, a palavra-chave para os próximos meses é planejamento.
Acompanhar o mercado, manter fornecedores confiáveis, diversificar produtos quando necessário e antecipar compras estratégicas pode fazer diferença caso ocorram oscilações de oferta ou custos.
Na M2i Comercial, acompanhamos o mercado de pescados e frutos do mar para oferecer aos nossos clientes não apenas produtos, mas informação para decisões de compra mais seguras. Trabalhamos com pescados e frutos do mar congelados para restaurantes, supermercados, peixarias e empresas do Food Service, com foco em qualidade, procedência, cadeia do frio e regularidade no abastecimento.

